Postado em 06/11/2007 por Eduardo
   Memória Ativa 13 - Pano Pra Manga
 
 
 
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Integração Latinoamericana
Editorial Folha de S.Paulo (em 24/12/07)

Roupa suja

Fiscalização, varejistas e clientes têm obrigação de pôr fim à exploração de trabalhadores ilegais por confecções paulistanas

SE ALGUÉM ainda desconhecia a exploração desumana de imigrantes em oficinas de costura apinhadas na cidade de São Paulo, agora não tem mais desculpa. Graças ao repórter-fotográfico Antônio Gaudério, que se passou por boliviano e enfrentou jornadas de trabalho de até 17 horas numa espelunca no bairro do Brás, a realidade crua foi escancarada nesta Folha.
Estima-se que um contingente de 1.200 a 1.500 imigrantes bolivianos ilegais chegue ao Brasil todos os meses. Vêm fugidos da miséria e em busca de trabalho -qualquer trabalho. Acabam se tornando presas fáceis para agenciadores inescrupulosos, que em nada ficam a dever para os patrões das famigeradas "sweat- shops" asiáticas, as oficinas- suadouros em que se confeccionam muitas das peças de grife cobiçadas por multidões.
Outros oito municípios de São Paulo abrigam antros de costura similares, mas a atividade ominosa se concentra em quatro bairros da capital: Bom Retiro, Pari, Brás e Itaquera. Segundo o Ministério Público do Trabalho, são comuns jornadas além das 10 horas diárias permitidas por lei, remuneração de poucos centavos por peça e trabalho infantil. Famílias inteiras dormem e se alimentam no próprio local de trabalho. É inaceitável.
Todo trabalhador, mesmo não sendo um nacional, tem de ser protegido contra esse gênero de exploração. Um mínimo de solidariedade recomenda legalizar sua situação. Os governos dos dois países curvaram-se ao imperativo civilizatório e firmaram em agosto de 2005 um acordo de regularização migratória que beneficiou cerca de 42 mil imigrantes clandestinos.
O acordo foi estendido uma vez, para dar mais chances aos que não conseguiam pleitear o benefício, por falta de recursos para pagar taxas necessárias ou de meios para comprovar a entrada no Brasil até aquela data. Mas tal liberalidade só faz sentido se acompanhada de um aperto significativo na fiscalização, para coibir com eficácia a perpetuação desse mercado ilegal.
Consumidores e lojistas também devem fazer sua parte. Algumas redes varejistas, depois de flagradas em envolvimento, já adotaram termos de ajuste de conduta. Cabe às outras mantenedoras da exploração seguir o exemplo, de maneira voluntária ou sob o peso da lei.
Aos compradores recomenda-se buscar informação sobre procedência dos artigos e desconfiar de preços baixos demais. Por trás deles podem estar trabalhadores escravos, ou muito próximos disso, em pleno século 21.

 
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Hasta cuando? (integração latinoamericana II)
Dizem que a escravidão é coisa do passado. Celebramos a assinatura de uma nobre princesa e de uma nobre Lei chamada Áurea como a emancipação moral da jovem nação. O movimento negro se fortaleceu como representativo grupo social e confere legítimidade a todas as ações afirmativas desta que já foi o principal objeto de exploração nacional. Acontece que a exploração do homem pelo homem em sua maneira mais explícita continua a todo vapor no Brasil e não se guia mais pelos rótulos da pele. Os escravizados, que muitas vezes se pronunciam como voluntários da escravidão (por necessidade e falta de opção), formam uma multiplicidade étnica tão variada quanto à da população do país (que dizem ser) mais miscigenado do mundo. A série Memória Ativa tocou neste assunto em sua primeira edição (Ouro Verde) em que o universo dos canaviais é o mais conhecido reduto escravocrata dos meios de produção rurais. Agora voltamos a cutucar, apontando as tecelagens clandestinas da região central de São Paulo, como o mais conhecido reduto escravocrata urbano. As pujantes indústrias da cana e da moda são apenas dois exemplos notórios em que seres humanos trabalham em situação "análoga à escravidão". Semana sim semana não, denúncias ocupam as páginas dos jornais. Mas existem outros setores que, talvez em menor escala, se utilizam deste procedimento em pleno século XXI. Hasta cuando?
 
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