| Editorial Folha de S.Paulo (em 24/12/07)
Roupa sujaFiscalização, varejistas e clientes têm obrigação de pôr fim à exploração de trabalhadores ilegais por confecções paulistanas SE ALGUÉM ainda desconhecia a exploração desumana de imigrantes em oficinas de costura apinhadas na cidade de São Paulo, agora não tem mais desculpa. Graças ao repórter-fotográfico Antônio Gaudério, que se passou por boliviano e enfrentou jornadas de trabalho de até 17 horas numa espelunca no bairro do Brás, a realidade crua foi escancarada nesta Folha. Estima-se que um contingente de 1.200 a 1.500 imigrantes bolivianos ilegais chegue ao Brasil todos os meses. Vêm fugidos da miséria e em busca de trabalho -qualquer trabalho. Acabam se tornando presas fáceis para agenciadores inescrupulosos, que em nada ficam a dever para os patrões das famigeradas "sweat- shops" asiáticas, as oficinas- suadouros em que se confeccionam muitas das peças de grife cobiçadas por multidões. Outros oito municípios de São Paulo abrigam antros de costura similares, mas a atividade ominosa se concentra em quatro bairros da capital: Bom Retiro, Pari, Brás e Itaquera. Segundo o Ministério Público do Trabalho, são comuns jornadas além das 10 horas diárias permitidas por lei, remuneração de poucos centavos por peça e trabalho infantil. Famílias inteiras dormem e se alimentam no próprio local de trabalho. É inaceitável. Todo trabalhador, mesmo não sendo um nacional, tem de ser protegido contra esse gênero de exploração. Um mínimo de solidariedade recomenda legalizar sua situação. Os governos dos dois países curvaram-se ao imperativo civilizatório e firmaram em agosto de 2005 um acordo de regularização migratória que beneficiou cerca de 42 mil imigrantes clandestinos. O acordo foi estendido uma vez, para dar mais chances aos que não conseguiam pleitear o benefício, por falta de recursos para pagar taxas necessárias ou de meios para comprovar a entrada no Brasil até aquela data. Mas tal liberalidade só faz sentido se acompanhada de um aperto significativo na fiscalização, para coibir com eficácia a perpetuação desse mercado ilegal. Consumidores e lojistas também devem fazer sua parte. Algumas redes varejistas, depois de flagradas em envolvimento, já adotaram termos de ajuste de conduta. Cabe às outras mantenedoras da exploração seguir o exemplo, de maneira voluntária ou sob o peso da lei. Aos compradores recomenda-se buscar informação sobre procedência dos artigos e desconfiar de preços baixos demais. Por trás deles podem estar trabalhadores escravos, ou muito próximos disso, em pleno século 21. |