O projeto de transposição das águas do Rio São Francisco começou a ser alardeado como 'a mais moderna solução' para a seca do nordeste em 1847.
Desde então, praticamente todos os governos federais discutiram a grandiosa obra de engenharia. Neste período, aqueles que se opunham à construção cresceram, se multiplicaram e se diversificaram. No governo Lula o assunto mais uma vez, se fortaleceu na agenda orçamentária. Desta vez o início da construção já tinha data para começar. O presidente falava aos quatro cantos que “nunca nesse país…
O IBAMA do século XXI liberou a realização alegando que tudo mudou e o meio ambiente não teria mais prejuízos. Liminares foram derrubadas em outras instâncias políticas-jurídicas. As obras iam acontecer e apenas o noticiário especializado repercutia. Foi quando Dom Luis Flavio Costa, bispo diocesano de Barra (BA), ocupa os jornais, rádios e tvs anunciando que entrara em greve de fome para convencer o Poder Público a adiar o início das obras. Em um documento, Dom Costa diz que está disposto a levar o jejum até a morte, caso o projeto não seja suspenso.
Da úmida Avenida Paulista aos mais remotos cantos-secos do Brasil, passeatas emocionadas são feitas a favor de Dom Luis Costa. Faixas e cartazes de apoio, solidariedade e pedidos de plebiscito. Dom Luis aparece na TV cada vez mais magro. A pressão aumenta e o assunto ganha as primeiras páginas dos jornais, o último bloco dos telejornais e o horário matinal das rádios noticiosas.
A greve, de um-santo-homem-só, ganha repercussão internacional e o (na época) Ministro das Relações Institucionais Jacques Wagner (hoje governador) chega levantando muita poeira na seca cidade baiana. Com ele está uma imensa comitiva - de carros 4X4, seguranças e principalmente repórteres - para acompanhar a negociação com o grevista.
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, maior megaphone da Igreja) se anuncia contra a transposição, mas reclama a escassez de poderes em um Estado laico. Dom Geraldo Majella traz a palavra, em nome da entidade sagrada: “A Igreja tem o poder, digamos, de persuasão, mas não de determinação”
Dom Luis Costa se empolga: “Tenho muita esperança no bom senso das nossas autoridades. Mas se por um acaso isso não acontecer eu estou nas mãos de Deus”.
O Carnaval se aproxima:
Elba Ramalho, em seu blog recém-inaugurado, também critica a transposição do Rio São Francisco. Supostamente a obra levaria água do Velho Chico para outros estados, inclusive para a terra natal de Elba, a Paraiba. Mas Elba está animada e tem argumentos vigorosos, além do apoio da CNBB, da OAB e do MST.
Censurada e perseguida por se declarar contra a transposição, Ramalho é bombástica: cancela a participação no carnaval de sua cidade e ameaça não voltar mais à Paraiba. Xeque-Mate. O assunto finalmente ganha destaque em veículos de amplo alcance, como as revistas semanais de celebridades.
Após muitas dicussões na TV aberta e algumas na TV Senado, as obras são paralizadas em respeito à devoção do bispo engajado e de outras manifestações hereges.
O governo da Paraiba, no entanto, não arrasta-pé e cancela o cachê de Elba Ramalho para o carnaval deste ano. Segundo alguns moradores de Barra (BA), Dom Flavio Costa está visivelmente mais gordo. A seca, as obras e o PAC seguem em água morna. Dizem que mais uma vez Elba terá um trio-elétrico só para ela no carnaval de Salvador.
Notícias de desvio de recursos públicos via SUDENE ou SUDAM são como chacinas. O público se acostumou a não dar muita audiência a certas tradições da nossa sociedade. Mas já fazia algum tempo que não ouvíamos novidades da Sudene ou Sudam. Foi quando surgiram as denúncias relacionando a empresa do então Ministro da Integração Nacional de FHC, Fernando Bezerra, que apontavam irregularidades (desvios e fraudes) em obras de abastecimento de água no nordeste. Bezerra sempre foi um homem de negócios, a transitar entre empresas públicas e privadas. Mas sempre manteve a saúde empresarial das suas, em sua terra natal, o Rio Grande do Norte. Como Ministro, supostamente estaria desligado de suas empresas. Mas surgiu a denúncia de que uma das suas empresas havia sido favorecida em licitação e a mesma não teria entregue o serviço prometido. E a fonte começou a secar. FHC afastou-se do escândalo, disse ‘não é comigo’ mas titubeou em afastar o ministro. Antes que fosse demitido ou que fosse aberta uma CPI para atrapalhar o trabalho do (ex) chefe, Bezerra se demitiu e, seguro de si, deu uma longa entrevista coletiva explicando porque abandonava o governo e porque suas empresas tiveram tanto lucro nos últimos tempos
Eis alguns trechos que tentam sintetizar a coisa toda:
“….o prejuizo pouco importa (…) Nós saímos do negócio (…) Isso não fere o código de ética, eu posso mostrar a você! (...) E se eu tiver cometido esse crime foi até agora. Daqui pra frente tá encerrado. Se tiver alguma coisa a pagar eu responderei por isso.” Fernando Bezerra, ex-Ministro da Integração Nacional
De lá, Fernando Bezerra foi diretamente assumir a a cadeira de presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) da qual estava lisenciado. O Conselho de Ética disse que, perante as leis, ele estava sendo investigado e não poderia assumir a presidência da CNI.
Mas, se logo depois do fato pouco se falou sobre o assunto…tudo isso é passado, notícia requentada que não interessa mais..
PS - Hoje Bezerra é Senador pelo PTB do Rio Grande do Norte e recentemente, em tempos de "apagão aéreo" foi cotado para assumir a INFRAERO.
- Brasília é um local muito seco. É impressionante, não precisa usar toalha, saiu do banho já está seco. Por isso, a importância das piscinas no cenário do cerrado, que além de trazerem fragmentos de azul para contrastar com o bege da poeira, minimizam os problemas de pele e o ressecamento das retinas dos moradores do Plano Piloto. Por isso Brasília é conhecida nacionalmente como a cidade das piscinas. Por isso parece muito comum e sem necessidade de ampla repercussão a notícia abaixo:
“O furto de água está crescendo nas áreas chiques de Brasília. Foram descobertas 440 ligações clandestinas de água. Os moradores fazem o chamado gato e não pagam nada. Em geral, a água serve para irrigar os jardins e encher as piscinas que são muitas nessa região.”
Num depoimento em OFF, um dos moradores da Asa Sul - que fora flagrado com um sistema ilegal de “interceptação de água” (e não quis se identificar) - trouxe a tona o seu ponto de vista sobre a questão: “O que tem de mais fazer um gato? O governo deveria sim regulamentar os gatos para regiões secas como o Planalto Central. Igualdade de condições, liberdade para fazer gatos tanto nas cidades-satélite quanto no plano piloto. Vamos deixar de ser hipócritas e exigir que o governo subsidie os gatos de água. Falta sensibilidade aí. Passe uma semana em Brasília no auge do período das secas e terás sensibilidade à flor da pele. O problema do Brasil é a falta de regulamentação. Se regulamentássemos a trambicagem, o preconceito, os disturbios, teríamos um outro país. Mas quem quer outro país?”
É muito dificil identificar no discurso deste senhor (M.B. – 43 anos) o quanto há de ironia, de cinismo, de surrealismo ou de ideologia convicta. Lamentamos que o depoimento tenha sido em OFF e que pessoas como ele ‘se escondam em liberdade’.