Janeiro de 2006: entra em cartaz a CPI dos Bingos. Conforme a trama principal se desenrola, são criadas novas sub-tramas que promovem a ascensão de estrelas como Okamoto, Palocci, Silvinho Pereira, Francenildo-o-caseiro e grande elenco. A audiência aumenta e gera matéria-prima para a confeccionar todas as capas das revistas semanais. Ao término de 3 meses, o sucesso é tamanho que ela ganha nova temporada. A CPI dos Bingos se renova por mais três meses. E em meio ao desenvolvimento do enredo, em maio do mesmo ano, o juiz aposentado Ovídio Sandoval dá uma entrevista ao Consultor Jurídico (www.conjur.com.br) reclamando a falta de uma direção mais firme e focada para a série de depoimentos e investigações. Após explicar que as regras são claras e que (por lei) as CPIs deveriam ser monotemáticas, Doutor Sandoval questiona:
“A CPI dos Bingos foi criada para apurar problemas atinentes a bingos, práticas ilícitas que o jogo pudesse trazer à vida nacional. E o que isso tem a ver com o assassinato dos prefeitos de Santo André e de Campinas?”, questiona o juiz aposentado Ovídio Sandoval, autor de “CPI ao Pé da Letra” (editora Millenium)
O juiz aposentado Ovídio Sandoval é um assíduo telespectador de CPIs. Sabe como funcionam todos os capítulos, de todos os enredos deste reality show quase sazonal. Chegou a escrever o livro “CPI ao Pé da Letra”, publicado pela Editora Millennium e, em uma entrevista ao Consultor Jurídico (www.conjur.com.br) fala sobre como as câmeras interferem na realidade.
“O apelo da mídia faz com que aquele deputado e aquele senador queiram aparecer. Eles ficam muito mais preocupados em fazer campanha pessoal e se esquecem que ninguém é obrigado a ouvir desaforo. Por exemplo, o depoente tem o direito constitucional de não se incriminar. Mas se a pessoa vai depor na CPI e não responde o que parlamentar pergunta, porque geralmente a questão não tem nada a ver com o fato determinado, o que passa na cabeça do cidadão comum é que os parlamentares são verdadeiramente os defensores da pátria e que aquele cidadão que esta depondo é um mal-feitor. A população faz um pré-julgamento e o cidadão convidado para depor já está com a honra lameada de todo jeito. Por outro lado, o deputado ou senador que o submeteram a toda a humilhação ficam livres de qualquer julgamento.” Ovídio Sandoval – Maio de 2006
No jogo da realidade midiática, saem perdendo aqueles que não souberem se posicionar bem na foto. Assim como em outras constelações, no ‘starsystem do planalto’ há espaço para todo tipo de história e personagem. Da comédia à tragédia, vilões, mocinhos, palhaços e anti-heróis atuam em um palco dramática e publicamente rentável. O respeitável público se emociona - seja de identificação, raiva ou indignação - e paga o ingresso.